Uma vez eu fui num laboratório, fui com
a patroa por que ela precisava dar uns choques nos nervos pra ver se eles
funcionam, uma coisa assim. No meu tempo, choque nos nervos era dedo na tomada.
110v era choque e 220v era coice. O problema é que só gente rica deve ter
problema nos nervos. Pobre já tem o sistema
nervoso, isso não é problema. Então, esse tal do exame só tem na unidade lá da
paulista e região, zona leste nem pensar.
Imagina, as 3 da tarde e aquele povo
que não faz nada da vida fazendo exame. E como eu sei que era esse bem-dito do
exame? Simples, tinha um andar só pra ele! Haviam 2 senhoras na minha frente
que tinha jeito de professoras, pena que o sobrenome anunciado pela atendente
entregava a profissão, dona de casa e mulher de empresário. Mãe e filha,
seguiam a linhagem nobre da família. Também tinha um cara que parecia aqueles
que perderam o emprego por já ter uma certa idade e com o dinheiro da demissão
resolveu montar um negócio próprio. Já gastou quase todo dinheiro no novo empreendimento
mas precisa manter a pose, precisa manter o porte perante os amigos, familiares
e sociedade. A final, ele era bem sucedido, mesmo falido. Sem esquecer de
mencionar, tinha também o adolescente do meu lado, iPhone e Nike. Balada de
consumação mínima de $150 e garotas que custam pelo menos 10x mais do que isso
por mês. Sem problemas pra bancar, mas deve ser um saco aguentar.
Em contrapartida tinha as 2 tias. As atendentes. Num local como
aquele, são funcionárias diferenciadas, condizentes com a clientela. Ensino
fundamental, 4 filhos, churrasco no domingo e R$900 todo mês na conta. Elas
aprenderam a ignorar as pessoas que as sempre ignoraram. Elas aprenderam a
fingir que os clientes não existem ao mesmo tempo que se preocupavam em não
haver contato físico, visual ou auditivo com eles.
No meio disso tudo a preocupação que eu
tinha era a do manobrista resolver liberar um pouco de sua raiva, criada e
sustentada todos os dias pela humilhações, inferioridade e indiferença da
magnifica clientela; e resolver dar aquela ralada no meu carro ou fingir que
não havia algumas tranqueiras dentro do porta-luvas.
A saída foi praticamente um parto.
Acreditava que a vida de gente rico era corrida e agitada, não foi bem isso que
vi. Paguei a exorbitância de 10% do salário do manobrista para o estacionamento
e aguardei uns vinte minutos na fila de espera do carro. Não sei se era
problema de logística ou ganancia absurda, mas faltava pelo menos metade de
manobristas necessário para cuidar de todo aquele povo, e mesmo assim ninguém
reclamava. Tanta exclusividade no laboratório e tanta humilhação no estacionamento, tendo que esperar, como se fossem
pessoas normais. Deve ser assim que eles veem o problema do transito de São
Paulo, não é o engarrafamento da 23 ou da Radial, é o engarrafamento do estacionamento
que deve matar.
Mesmo com uma vontade grande de
reclamar com alguém, dizer algumas poucas palavras para a mocinha que ficava no
caixa sobre os outros guichês vazios, sabia que se dissesse algo ela ia levar
para o lado pessoal, não ia adiantar nada e só ia arrumar confusão com quem eu
menos gostaria. Depois disso tudo, meu carro subiu do andar de baixo, se
destoava dos demais, não pela cor por que o preto dominava mas pelo tipo, o meu
era o único nacional. E também era o menor de todos.
Saia e chegava carros de 5, 7, 10
lugares mas só com o dono dentro. Deve ser consciência pesada, coisa da culpa.
A família toda deve andar no carro no máximo 1 vez por semana para ir em algum
jantar especial ou coisa do gênero, mas tentar mostrar para os outros que a família
esta a cima de qualquer coisa, chega a ser hilário.
Peguei meu carro... obrigado, boa tarde e bom serviço foram
as únicas coisas que disse para aquela pessoa que me entregou o possante. E a
única coisa que recebi em troca foi um sorriso, não em retribuição ao que tinha
dito, nem sei se ele chegou a escutar, mas em retribuição a existência dele
mesmo. Eu havia visto o que não era para existir.
Depois de ter passado pela Radial as 6
da tarde, estava tranquilo pelo transito que deixei para trás e pela realidade
que eu não fazia parte e me incomodava profundamente.
E a única conclusão que tirei desse dia
foi que as pessoas ainda acreditam que ela são o que elas tem. Se você não tem, você não é, você não existe. Só isso.
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